sábado, 28 de dezembro de 2013

Depois de Cecília depois de novembro

Novembro acabou, a meta do projeto se cumpriu, o ensaio acadêmico foi entregue, avaliado e enfim, mas o Pesqueiro é um lugar incrível e a nossa Vovó uma figura presente. Sempre uma história e um pedaço de chão a serem redescobertos. Por isso que a vida por aqui vai continuar. Vezenquando uma imagem nova, um retalho de memória recontado. Muita lindeza. Obrigada a quem acompanhou e segue de olho no que veio Depois de Cecília. Feliz Ano Novo!

O céu do Pesqueiro em um dia de calor.


Sobre ontem

Ontem, 27 de dezembro, voltei ao Pesqueiro para entregar os documentos que tinha pegado emprestado para complementar o trabalho. Queria devolver tudo antes do final do ano e quase que não deu tempo no meio de tanto "tem que fazer com urgência". O plano era sair de casa logo após o almoço, mas só conseguimos pegar estrada depois das 17h. Aliás, nota para 2014: planejar saídas para depois do almoço não dá certo. O Bruno nos levou: vó Daura, minha companheira fiel do projeto, a mãe e eu. Passamos no Povo Novo para rever a tia Marcina. A mãe não a via há muito tempo. Foi bonito presenciar mais um reencontro dos nossos. Dali, seguimos ao Pesqueiro. 

O tio Damasceno é sempre a primeira pessoa que a gente encontra quando chega do Pesqueiro. Impressionante. Lá ia ele, com uma bengalinha para fazer charme. Perfumado e contador de histórias, nos levou para o pátio de sua casa, onde estavam os filhos sentados à sombra. Devolvi a folhinha de caderno com as anotações do Vovô Inocêncio, os registros de nascimento dos filhos com Cecília. Minha gratidão por essa família não tem tamanho.

A Maninha e o Cica nos levaram para conhecer a vertente, a famosa vertente onde a vó Daura, as irmãs e as tias lavavam roupa na época em que a Vovó Cecília comandava a galera. A água está pouca por causa da falta de chuva, mas dá para entender exatamente o porquê do brilho nos olhos da vó quando ela conta da infância. Apontavam aqui e ali os lugares onde ficavam as casas antigamente: a da Cecília, a da vó Lice, a dos outros tios. Dava um dedo para ter visto um dia da rotina daquela gente ali. Não tem quem não repita que naquele tempo se passava trabalho para viver, mas era bom, era bom, era bom, como era bom. 

A vertente.


Vó Daura e Maninha me contando tudo.



Vó Daura e Maninha relembrando a infância.


Chão, muito chão.

Maninha, mãe e vó Daura.

Fiquei ouvindo os relatos compartilhados e segurando os dentes dentro da boca para não parecer ridícula com um sorriso permanente. É muito apelo para ficção. Por último soube de um caso de lobisomem, real, me asseguraram a vó e a Maninha, coisa daquele tempo. Sabino Gomes é o personagem complexo, misto de vilania e mistério, cercado de lenda sobre seus feitos. A revolução e seus cativeiros, os índios e seus vestígios, os bailes de carnaval, os jogos de futebol, as travessias para a Ilha dos Marinheiros. Não sei se seguro a vontade de preencher com imaginação as brechas que não me contaram... :)

É uma terra boa para plantar, é sossego para deixar a casa aberta até tarde, é sombra para atacar o calorão do verão. É lindeza que nem fotografia apreende. Revi o Caco, para quem devolvi o restante dos documentos, as certidões e contratos de 1910, para mais e para menos. Por mais que eu diga, duvido que ele saiba o valor que teve e tem o gesto de confiança dele, deles todos, comigo. Ainda mais gratidão aqui. 

Já estávamos no carro para ir embora quando chegou uma senhora. Acompanhei um abraço apertado e longo dela com a minha mãe. De longe percebi que era parente também. Os olhos, o nariz, o jeito de amarrar o cabelo denunciavam. Era Ana, filha do tio Altamir, a cara da vó Lice. Não canso de me impressionar com o vigor da genética desse pessoal. Seria capaz de pará-la na rua para perguntar se é da família da Vovó. 

Até breve, Porto Solidão.

Não poderia passar pelo Pesqueiro sem dar uma espiada no Porto Solidão, meu canto preferido ali. Precisava me despedir. Sabe lá quando vou poder fazer nova visita. E foi com o coração cheio de uma coisa que não sei explicar que me vi dando volta para casa. Sinto que de alguma forma fechei um ciclo, devolvi a mim um pedaço de história que me faltava, que me pedia luz, que tinha que ser encontrada intimamente. Foi uma busca pessoal, de razões subterrâneas, quase, pois até agora não sei direito explicar o que me prende tão fundo a um lugar ao qual nunca pertenci de corpo. Não tive, eu mesma, experiências no Pesqueiro nem com as pessoas contemporâneas a Cecília diferentes dos meus primos que regulam de idade comigo, por exemplo, todos nós tão plantados em Rio Grande e querendo muito mundo fora daqui. O que é que me empurra para lá e para essa história familiar com tanta força? Isso não alcancei. Isso ainda não descobri. Mas alimentar o bichinho do reencontro com as origens na minha mãe e especialmente na minha vó já valeram a viagem. Vou contente para 2014.

sábado, 30 de novembro de 2013

"Que eu digo que a vida é boa"


Não era fácil, mas era bom. Tio Damasceno, nosso contador de histórias, uma lição de otimismo e humildade.

Nesses dias tão corridos de final de novembro, eu quase não consigo reservar horas calmas para me dedicar ao projeto como ele requer e merece, mas me repito: meu pensamento e o meu coração estão aqui, ancorados nessa história toda bonita e forte, depois de Cecília. Posso não escrever tanto quanto e com o zelo que gostaria, mas a reflexão segue sendo feita, enquanto ando, como, trabalho, arrumo, durmo. Estou bem aqui. Que a gente precisa de pouco para achar a vida boa, mesmo quando não é fácil.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Acaba o mês, mas não termina a busca

Cecília e Elícia lá atrás de nós três: Daura, Alice e eu.

Sabia desde o início que o novembro seria pouco para aprender e descobrir sobre Cecília não só o melhor, o bonito, o que dá gosto de rememorar, mas também o que doeu e nos constituiu até aqui. Vai terminar o mês e fico com um tantão de vontade de seguir dezembro adentro, talvez pelo 2014, os registros de achados familiares. A passagem de Cecília por aqui é interessantíssima, mas fascinante mesmo é colecionar memórias ditas, os relatos feitos de lembrança, cheios de afeto, dessa minha gente do lado materno.

No fundo, sinto que o movimento que propus - e acho que consegui cumprir a proposta com sucesso - tratou justamente de algo que ainda desconheço em próprio corpo, que só sei de ouvir e constatar, mas que existe em mim em potência: maternidade. Há diversos homens compondo nossa colcha de retalhos, o tio Damasceno hoje o mais destacado entre todos, mas foram especialmente as mulheres que me levaram até Cecília, ou a trouxeram até mim. Cecília, Elícia, Daura, Alice e eu. É uma narrativa a perpassar ventres, a gerar sementes, a crescer e a me pedir continuidades.

Não sei o que vem pela frente, pela vida. Neste momento, ser mãe é algo que não ocupa os meus desejos de futuro, embora a sombra da cobrança não se descole dos meus calcanhares. Não darei à luz vida nenhuma por ser exigida, já entendi que cobrança é só isso: expectativa alheia, coisa que pode se consumir em si. A vontade de criar, essa sim, já está aqui, em mim, há muito tempo pedido vazão. Há milhões de maneiras de gerar vida e talvez a minha contribuição para depois de Cecília seja dessa forma, por gestações escritas, os filhos que tenho condições de parir.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Para o baile para comemorar!

Damasceno com os filhos e a namorada.

Várias vezes cantamos parabéns ao tio Damasceno, que fazia 89 anos no dia seguinte a festa de Santa Cecília. Consegui pegar uma dessas cantorias e acho que esse clima de contentamento por tê-lo por perto, de valorizar o estar vivo e saudável, é uma das imagens mais bonitas do Pesqueiro que vou levar comigo. Quero para mim essa alegria constante.


Enquanto penso nisso, vou resolvendo as coisas da minha vida com mais leveza, apesar da correria e da minha insuficiência para dar conta de tudo. Simbora, Vovó! :P

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Deixa que eu cuido



Faz dois dias que eu ando com os documentos que consegui no Pesqueiro embaixo do braço para fazer cópias. São contratos de compra e venda de imóveis datados de 1910, em papel almaço amareladíssimo, se desmanchando ao toque. Junto com o envelope, levo o medo de perder, de deixar esquecido em algum balcão de xerox por pura distração. Não é a minha cara esquecer ou perder coisas importantes, mas dar azar, sim. 

Tentei digitalizar em casa, mas a área de scanner da impressora é mínima e não funcionou. Levei para o trabalho, que lá tem uma impressora gigante. Passei mais de uma hora no período do almoço digitalizando página por página para depois descobrir que um pedacinho de nada do papel não foi captado. O jeito foi levar para fazer cópia, mesmo. Foi engraçado até, eu dizendo para a menina não ter pressa, virar as páginas bem devagar para não rasgar o papel, e ela torcendo o nariz. Quase pedi para fazer eu mesma as cópias. Fiquei ali na espera rezando para que a moça me atendesse. Ela passou para outra pessoa fazer, que me trouxe o montinho de escrituras intacto de volta. Ufa.

Queria devolver aos donos tudo isso no final de semana, mas vou trabalhar e no próximo também e tá difícil esse final de 2013, entupido de afazeres. Papelada em segurança, assim que puder levo de volta, na primeira oportunidade. O padre ficou de me ligar para marcar a data da renovação de votos dos meus pais na capela de Santa Cecília e até agora nada. Mal vi meus pais essa semana. É uma pena que esse "evento familiar" provavelmente morra na casca. Não depende de mim, não tenho muito o que fazer a respeito a não ser esperar. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Recaptulando

Essa vai ser uma semana de arrasar, de tanto compromisso se atropelando. Enquanto driblo o sono e o cansaço - que uma hora o corpo grita de tanto dormir tarde, acordar cedo e comer porcaria - junto as pontas desse mosaico de versões sobre Cecília que consegui recolher. De um trabalho ao outro são uns 40 minutos de ônibus e se não cochilo fico lembrando do que vivi nos últimos dias e tentando separar os achados para o trabalho acadêmico das minhas emoções descontroladas.

É absurdo sentir essa vontade ardida e imensa de falar com Cecília. É ilógico, mas quem pode controlar o sentir? Sinto que estou realmente próxima a ela ao remexer nessas falas todas e é isso o que a memória coletiva e o registro familiar têm de tão extraordinários: redimensionam o tempo e atualizam os espaços. Estamos diante uma da outra. Aqui, do meu lado, fico  observando tudo, examinando nossos contrastes, avaliando a maneira como os galhos de Cecília e Inocêncio se desenvolveram até a ponta em que brotei. Há episódios curiosos, há gente que testemunha momentos em que essa mulher minha trisavó foi de nobreza e fibra extremas, e há fatos cujas consequências não consigo compreender.

Muito do pouco que descobri me intriga. A dureza da vida que seus descendentes imediatos experimentaram depois que ela morreu, por exemplo. A força de alguns jeitos de falar e de resolver problemas que se repetem em núcleos familiares já tão distantes de Cecília, sem que nenhum dos membros tenha convivido ou sequer ouvido falar na Vovó. Interessante e comovente.

Outra coisa que tem me acontecido nos últimos dias, influência dessa história de passados e presentes, claro, e que está virando hábito muito meu: ouvir as histórias, revê-las nas gravações ou relembrá-las e imediatamente pensar em compor personagens, cenários, enredos inteiros a partir de uma palavra ou imagem que me chamaram a atenção. É moeda descoberta, pirataria no porto Solidão, sapo de estimação, pombo-correio, muito apelo para a ficção. Em absoluta correspondência com vidas reais. Estou fascinada.

Sobre os pombos-correio



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Para ela, se ainda ouvir e onde estiver

Cecília, não tem sido fácil, mas tem sido lindo de um jeito absurdo, enorme, feliz, te procurar. Quando comecei o mês estava sozinha, com um trabalho acadêmico atravancando a vida e uma vontade de te saber. Hoje é 25 e parece que só pisquei e a folhinha do calendário está, de novo, prestes a virar. Nem sei quando foi a última vez que aproveitei um período pleno desse, para a família. Não é todo dia, mas quando é é bem sido, bem junto, bem dentro, bem aqui. Faltam cinco dias para o mês terminar e o ensaio para o curso ainda é pendência. Tenho medo de começar e fazer mal. Preciso esmiuçar a questão dos diários e suas particularidades, mas só sinto vontade de escrever sobre ti, sobre nós todos, sobre mim mesma. Foram dias de terapia coletiva, de resgates, de limpeza de carmas, de costurar portais e rasgar novas passagens para deixar a luz entrar, em avalanche. De alguma forma, Vovó, te procurar assim, com tanto respeito e insistência, me liberou de uma série de nós, me fez maior e tem me curado. Antes, bem antes de colocar em prática o meu "revirar de baú" eu já te sabia em pedaços, em fragmentos, em cenários. Acho que sabia melhor aquele lugar, tão nosso, que não poderia ter recebido nome mais adequado. O porto Solidão é um abraço, um colo a quem chega ou vai. Eu vim. De novo. Queria dizer que aportaria mais umas mil vezes, mas sinto que estou perto de concluir uma viagem definitiva. No tempo. Não posso mais ter saudade do que fomos, pois a minha vida de então é agora e tenho muito por fazer. Dizem que um sujeito só deixa de existir quando morre a última pessoa a lembrar-se dele. Desconfio que, como pude, alonguei tua presença e te fiz em palavras, em fotografias, em compartilhares. Nos meus sonhos teus olhos me aprovam e isso me basta: essa compreensão inventada, esse tapinha nas costas e o teu "vai" enérgico e hipotético. Porque eu vou, Cecília. Aos trancos e barrancos, mas eu vou. E sabe, nunca estive tão aqui, plantada firme e funda nesse já. Minha gratidão é para sempre, Vovó!